Excursão a Fátima Finalmente o grande dia chegou!
- Ó Aurora vai acordar o moço. Olha que são horas!
– P´ra festas não tem você perna manca. Ainda é muito cedo!
– Áh... sua puta! Deus me perdoe! Valha-me Nossa Senhora de Fátima! Se não quiseres, não o levo.
Qual não o levas, qual carapuça! Não era preciso acordar o rapaz. Ele, com uma audição canina, ouvira as últimas palavras da avó. Não havia tempo a perder!... Salta da cama e num pulo está agarrado às saias da velha.
- Veste-o, anda. Vê se te despachas! És sempre assim…
Desta vez, a mãe não teve que fazer grande esforço para vestir o rapaz. O medo de que a avó o deixasse ficar, era tanto, que enfiou as calças de bombazina, de uma só assentada, e pronto logo ficou, para partir.
Atónito na quantidade de cestos, garrafões e outras despensas portáteis, confundido com a vozearia que ecoava a léguas de distância, Danilo chega ao largo da terra e fica à espera que o autocarro chegue.
- Ó avó, a camioneta não vem?
– Vem, vem, não te aflijas, chega já.
A avó sabia!
Eram muitos anos de experiência, feita de muitas viagens a Fátima.
Mal a avó acabara de proferir aquelas palavras e já uma linda caminheta, como ela dizia, chegava.
- Vamos entrar, para arranjar lugar.
Avó à frente, Danilo agarrado às suas saias, os dois entram no autocarro. Era a primeira vez que Danilo entrava num! Tudo era novo para ele. A velha Benilde escolhe um dos lugares da frente, junto à janela, e senta-se. Danilo, de imediato, senta-se no colo da avó.
Pequenino como era, não tinha direito a meio lugar no autocarro, quanto mais, a lugar inteiro!
Mas que aquilo era bom, não havia dúvida. Isso via-se na cara plena de satisfação do netinho da velha Benilde.
- É lindo, não é, nino?!
O abanar significativo da cabeça, era a forma que Danilo tinha de deixar perceber duas coisas: a primeira, de concordância com a avó, mulher sábia, nas suas setenta e mais algumas primaveras. A segunda – o olhar travesso do miúdo, não enganava nunca – era sinal de que não vinha muito contente com a companhia do lado.
No mesmo banco, do lado de dentro do autocarro, ia sentada uma velha. Era tão velha que Danilo tinha a impressão que a velha haveria de cair.
O ar caduco da Dona era acentuado pelo negro que lhe cobria o corpo, da cabeça aos pés. O lenço que levava amarrado à cabeça era negro, como negro era a blusa e a saia de cetim. Ao olhar para a velha, Danilo via nela a figura do corvo que tantas vezes, esvoaçara por cima da sua cabeça, para se pendurar no ramo do pinheiro, mesmo em frente à janela do quarto em que dormia.
A velha senhora ia calada. Tão calada que o seu silêncio era aterrador.
Devia ser promessa!...
Mas disso, nada percebia Danilo. Só sabia que aquela figura lhe metia medo, muito medo. È que a velha, mais negra que a noite, a cada balanço do autocarro, puxava para vomitar, lançando um rugido de arrepiar.
- Que nojo, dizia para si, Danilo.
A viajem começou. Da terra natal arrancam e acompanham o rio Douro que aqui e acolá se esconde para logo voltar a aparecer. Até parecia que queria brincar com Danilo.
Foi assim até ao Porto.
Mesmo no Porto, o rio que Danilo também conhecia, por ter nascido junto a ele, não o abandonara.
De repente o rio desaparece da vista e surge aos olhos de Danilo, um grande rio, um rio sem fim!...
- Tanta água! Exclama, Danilo.
- Ó avó, porque é que o rio, aqui, é tão grande?!
- Aquilo não é o rio filho, é o mar!
- O que é o mar? Pergunta Danilo.
- Olha… É o que tu estás a ver!
O autocarro para.
Estavam em Espinho.
Era tempo para o pequeno-almoço.
- Ó pessoal, vamos parar aqui meia hora! Chega para tomarem qualquer coisita e fazerem as necessidades. Partimos às 9,00 horas. Que ninguém se atrase, temos muito que andar.
Era o tio Manel, o tratante da excursão.
Benilde e neto saem do autocarro.
- Vamos ao café, nino, vamos?
E lá foram os dois, a velha e o menino. Ele sentou-se numa cadeira, à homem, maugrado a sua pequenez na irrequietude dos seus três anos e meio.
- Que desejam? Foi assim que o empregado de mesa se fez anunciar.
- Ora olhe, eu quero uma xícara de chá. Aqui pró pequeno, uma de café, está bem?
O empregado lá se foi lesto, não fosse rebentar de riso, dos modos da velha Benilde, mulher da aldeia pouco habituada a frequência de cafés e à cidade.
De regresso, o empregado de bandeja na mão, aproxima-se de Danilo. Este olha e vê duas minúsculas chávenas, dentro da bandeja.
- Que raio, pensou Danilo. Será aquilo que me querem dar?
È que o raio da chávena, de tão pequena, não dava para lhe saciar a toca de um dente, quanto mais a fome que tinha!
Mas era mesmo. O empregado, põe as chávenas na mesa, colocando à frente de Danilo, a sua.
Irritado, o pequeno grita:
- Eu não quero isto!!! Quero uma malga com sopas!
O café parecia querer ruir ao som das gargalhas, saídas de gargantas secas e cansadas na erosão dos muitos anos de labuta, mas sempre prontas a rir da vida.
O pequenote acabara de fazer a sua primeira reclamação.
O porquê de tanto espanto, não o compreendia ele! Em casa, era sempre assim que lhe davam o pequeno-almoço: o café, numa grande malga, entulhada em sopas de trigo, até não poder mais.
E com isto, as nove horas que o tio Manuel marcara, tinham chegado.
Era tempo de retomar o lugar no autocarro.
A viagem prosseguiu, com destino a Aveiro.
Danilo, cansado, adormece no colo da avó e nem dá conta que o autocarro voltara a parar.
Estremunhado, é acordado pela velha Benilde que, para o animar, lhe aponta uma barraca de brinquedos, mesmo em frente.
É para lá que se dirigem.
A avó pára, a mirar uns carritos de plástico, muito bem arrumados numa tenda de brinquedos.
Aqueles carritos, de plástico, pensou a avó, não deviam custar grande dinheiro e o seu menino, certamente, ficaria muito contente se ela lhe comprasse um.
Estava a avó com estes pensamentos, quando o diabo do miúdo, mais lesto que o vento, pega num dos carritos e desata em correria louca, em direcção ao autocarro!
O feirante não perde tempo e apesar dos seus muitos anos, atrapalhados pela avantajada barriga, desata atrás do pequeno ladrão, procurando, em vão, alcançá-lo.
Num abrir e fechar de olhos, para desespero do feirante, já Danilo desaparecera e se enfiara, bem escondido, no interior do autocarro.
Para conter a ira do perseguidor que impotente, vociferava contra tudo e contra todos, espumando-se de raiva, a velha Benilde lançou mão da sua sabedoria e puxando de uns tantos cobres que sempre trazia dentro de uma saquinha de pano, escondida entre os seus seios, regateou o preço, pagando ao feirante, o que antes da façanha do miúdo, já decidira.
Na ressaca, a habilidade ficou cara a Danilo.
Havia coisas que a avó não perdoava.
Fazer-lhe passar vergonhas, era uma delas.
Chegada ao autocarro, foi direita ao neto e pregou-lhe um bom par de estalos, naquela carita arrependida.
Ele aguentou! Sabia que as bofetadas eram merecidas. O choro só veio quando a avó lhe tirou o carrito.
Esse iria ficar guardado até chegarem a casa.
A viagem prosseguiu.
Danilo embufado, não tugia, nem mugia e assim se manteve até nova paragem.
Agora em Coimbra.
“Portugal dos pequeninos” era visita obrigatória nas excursões do tio Manuel. Danilo, admirado com o tamanho das pequenas construções, olhos esbugalhados de espanto, vira-se para a avó e pergunta-lhe:
- Ó avó, como é que a gente entra nestas casas? Elas são tão pequenas!...
A velha Benilde que também sempre se admirara do tamanho daquelas construções, sem nunca ousara procurar saber o porquê daquela pequenez, pensou, pensou e atirou:
- Sabes, essas são casas do antigamente! E no antigamente a gente era muito pequenina?
- Mais pequena que eu, avó?
- É… mais ou menos!...
Danilo convencido e alegre por os homens do antigamente não serem maiores que ele, entra nesta e naquela casa, feito homem do antigamente, dono e senhor de todo o casario. De tanto entrar e sair que se cansou, carregando-o a avó ao colo e ele, embalado no passo firme da velha Benilde, adormeceu. Nem deu conta que o autocarro já partira e parara novamente, agora junto à Universidade.
Este era outro dos locais cuja visita as excursões do tio Manuel não dispensavam.
Aquela gente, na sua maioria analfabetos de pai e de mãe, sentiam um especial fascínio por aquelas velhas paredes, onde os doutores, gente que não devia ter nascido como eles, estudava, para depois, mandar no País. Era ali que tinha andado o Salazar, ouviam dizer. O tal que a rádio dizia que falava com a irmã Lúcia.
No imaginário daquele povo que do poder e de Salazar, nada mais sabiam que aquilo que ouviam dizer, por falar com a irmã Lúcia, Salazar devia ser Santo. Só podia ser santo!...
Dos homens de poder, aquela gente só conhecia o regedor da terra, homem de copos e de maus instintos que nem o Padre tinha em boa conta.
Um passeio apressado pela parte velha da Universidade que não demorou mais de dez minutos, foi tempo mais que suficiente para aquela gente se bastar, com a sapiência coimbrã e almejar por um pinhal, onde pudessem estender as toalhas para comerem o farnel que, com tanto desvelo, as mulheres tinham preparado.
E assim foi.
O tio Manuel lá deu instruções ao motorista para se dirigir a um pinhal, às portas de Coimbra, no caminho para Fátima, restaurante habitual das suas excursões.
Aqui chegados, os excursionistas desatam a correr para a bagageira do autocarro e num ápice, é vê-los de ceira numa mão e garrafão de 5 litros na outra, à procura da melhor sombra, para se refastelarem com o marendeiro, em casa preparado por mais de três dias.
Ali estavam as galinhas que Danilo vira perder a cabeça, as pernas de porco, o salpicão, a broa de milho e claro, tudo bem regado a vinho americano, branco ou tinto, muito de preferência.
Acabada a refeição, muitos dos excursionistas já não tinham o equilíbrio da manhã.
O vinho americano desaparecera dos garrafões e subira à cabeça daquelas pobres almas.
No caminho para Fátima, o cheiro dentro do autocarro fedia.
Alguns não aguentaram o farto repasto a que não estavam habituados e entornaram, janela fora, os excessos do almoço. Outros, de tão torcidos pelo traiçoeiro americano, deixavam escorrer pelas pernas abaixo, o que deviam descarregar num valado em que o tio Manuel sempre parava para que todos fizessem as suas necessidades.
Quando o valado apareceu, era já tarde…
Á medida que se aproximavam de Fátima, o cheiro fétido do autocarro ia aumentando.
Para alívio de todos, eis que Fátima surge à frente dos seus olhos.
Nesse instante, todos os males são esquecidos e o recolhimento, é o sinal da fé que faz com que todos os anos o tio Manuel tenha clientela para as suas excursões.
Quando o autocarro parou, num recinto, por baixo de umas velhas azinheiras, era já fim da tarde.
A devoção que levara aquela gente a meter-se ao caminho, vem-lhes à face e todos os seus gestos, são agora solenes.
As vozes ficaram quedas e o pensamento vai para a Virgem e para os males que atormentam aqueles corpos vergados às canseiras das vidas.
Todos tinham promessas para cumprir e todos tinham uma fé inabalável nas graças da Senhora.
Homens, mulheres e crianças perfilam-se atrás do tio Manuel que organiza uma improvisada procissão.
A senhora Augusta, beata da aldeia, puxa do terço e inicia uma reza.
Todos a seguem nas suas orações, mesmo a velha que Danilo julgara muda, por, até ali, não ter dito uma única palavra!
Rezadas algumas avés marias e pais-nossos, iniciam um cântico de graças à Virgem Maria que sai destoado das bocas ressequidas de homens avermelhados pelo álcool e que no misticismo do local, se acham transportados para o Céu.
Chegados ao recinto, aumenta o tom dos cânticos e a fé como que redobra perante a presença, ali tão perto, da capelinha das aparições, repouso da Virgem.
Junto à capelinha, reza-se o terço. Terminado o terço, cada um, acompanhado da sua fé, parte para satisfazer as promessas que ali os trouxera.
Nesse entretanto, já Danilo se afastara, admirado com aquelas pessoas que de joelhos, se iam arrastando, a caminho e à volta da capelinha.
Danilo via nos olhos daquela gente, o sofrimento da vida que as levava a tamanhos sacrifícios.
De joelhos, de rastos, joelhos e braços, a escorrer sangue, aquelas pessoas persistiam em caminhar, quando no seu rosto de dor, se via a vontade de ali ficarem deitados, esquecidos dos males que queriam curados.
Estava Danilo tão especado, perante aquele quadro de dor e sofrimento que, por momentos, esquecera a avó.
Quando voltou a si, receoso do Deus que obrigava aquela gente a tão grandes tormentos, agarrou-se à primeira-mão que lhe apareceu!...
Ao contactar com a mão que queria protectora, Danilo estremeceu, aquela não era a mão da avó Benilde! Vai daí, larga aquela mão estranha, receando que fosse a do Deus que obrigava os homens e mulheres que antes vira, a arrastar-se chão fora, como se fossem cobras! Desata a correr, desnorteado. Queria a protecção do autocarro. Esbaforido, entra no primeiro que lhe aparece.
Azar!
Aquele não era o dele.
Estava Danilo a tomar ares, quando uma velha senhora lhe diz:
- Vem cá, meu menino!
Danilo fitou-a, com ar desconfiado.
- Vem cá que eu não te faço mal! Insistia, a senhora.
Era o que agora lhe faltava. Não a conhecia de lado nenhum e queria que ele confiasse nela!
Com a velocidade com que entrou, saiu e enfiou-se noutro autocarro que estava junto àquele.
Voltara a enganar-se!
Outra velhota a chamar por ele. E ele outra vez a correr.
Andou nisto por mais de dez autocarros!
Cansado, aflito, com uma lágrima a fugir-lhe pelos seus olhitos verdes, pensa na avó e lembra-se de pedir à Senhora de que a avó lhe falara, para que a trouxesse de volta.
Desanimado, entra em novo autocarro e, de repente, os seus olhos alumiam-se de alegria!
Ali estava o seu autocarro!
Triunfante, entra nos aposentos perdidos.
- Á meu malandro! Por onde andas-te tu?! A tua avó anda por aí a chorar, aflita, à tua procura!
- Meu filho da …
- Não me largasse a mão, responde Danilo, trémulo, ao ver a cara molhada da avó.
- O que havia de ser de mim?! Chegar a casa sem ele!!!
– Você tem a mania de trazer os filhos dos outros! Era o tio Manuel que assim falava, na sua voz rouca e forte.
- Filho dos outros?!!! O homem era mas é burro! Então avó, não é mãe duas vezes?!
Mãe duas vezes era a avó, mas isso não lhe valeu, na hora em que ela lhe deitou a mão em cima!
O castigo foi pesado.
Uma surra, daquelas de não esquecer e daí, até ao fim da viagem, a vigilância apertada do tio Manuel que não mais, o perdeu da vista.
Depois da procissão das velas e de um sono descansado, junto ao recinto e sob a protecção das azinheiras, ali bem próximo da capelinha das aparições, os excursionistas iniciam a viagem de regresso a casa.
Danilo iria conhecer a Nazaré, terra de pescadores e de varinas e, depois, a Figueira da Foz, com a sua grande e esplendorosa praia, perenemente enamorada do mar.
No caminho, Danilo já esquecera a surra da avó e iludira a vigilância do tio! Na Nazaré, Danilo fica na praia a admirar a salga dos carapaus, pronto a fintar a varina que os guardava e provar o sabor daquela forma, para ele desconhecida, de conservar o peixe.
Mais adiante, a velha Benilde já cansada das paragens e fitas do neto, perde a paciência:
- Vamos embora Danilo, são horas do autocarro partir!
- Não vou! Não vou!
Danilo mirava, mais uma vez, uma tenda de brinquedos!
– Anda daí!
Ele, nada!
Se apanhasse a avó distraída e o homem da tenda…
- Não ouves? Vens, ou não vens, seu estupor! Olhe que eu levo-te pelas orelhas!
- Ai é. Pensou Danilo. Eu digo-lhe já como é! Murmurou para si.
Se bem o pensou, melhor o fez! Antes que a avó lhe adivinhasse as intenções, Danilo descalça as botas, estreadas no passeio e que de tão duras eram um martírio para os seu pés e atira-as para um quintal, cercada por um muro que de tão alto, desanimava qualquer um que pensasse em o trepar!
Por cima, lá dentro, faziam-se ouvir uns cães…
A avó barafusta, diz que faz e que acontece.
Danilo livre das botas e habituado que estava a andar de descalço, recupera a liberdade para os seus pés, fartos dos malditos apertos.
Chegados à Figueira da Foz, os mais novos são surpreendidos com a presença de uma pista de carrosséis, bem próxima do local em que o autocarro parara.
Danilo aproveita a gentileza de um rapazote que interessado na prima, se serve dele, para conseguir mais uns momentos, junto da sua pretendida e, para isso, lhe oferece umas voltitas no carrossel!
O pretendente da prima, porém, não tinha grande jeito para aquelas engenhocas.
Logo à primeira volta, uma travagem brusca, atira Danilo para a frente e faz com que ele bata, com violência, na chapa do carrossel.
Em pouco tempo, um enorme galo surge na cabeça de Danilo!
O raio do galo, era como a maioria dos homens que Danilo conhecia! Gostava de vinho, até dizer chega!
Depois de muitos emplastros, de vinho tinto, colocados na testa, o galo começou a desaparecer.
Danilo só não sabe, se foi do vinho ou das rezas que a avó fez, à sua santa predilecta.
À custa de tanto vinho darem ao galo que atordoaram Danilo!
A viagem de regresso foi feita a dormir.
Quando acordou, já estava no largo da sua terra.
Cansado, chega a casa. A vontade de contar as façanhas da viagem era muita. Mas o sono venceu-lhe a língua e nem pernas teve para se deitar. A mãe pegou nele ao colo e colocou-o na sua camita, ao lado da cama da avó, onde sempre dormia.
No outro dia, preparava-se Danilo para fazer o seu relato, quando ouviu a avó dizer à mãe:
- Nunca mais o levo! Parecia que tinha o diabo no corpo. Eu nem conto, que só visto!
- Eu não lhe dizia?! Não o levasse!
Depois disto, Danilo o que queria, era que a avó não contasse mais nada!... Por ele, a mãe ficaria na ignorância.
O dia prosseguiu.
Com ele, as preocupações da vida tomaram conta do tempo da avó e da mãe e ninguém mais se lembrou de inquietar Danilo.
Ele também já mergulhara nas suas brincadeiras, acompanhado dos amigos de sempre.
A eles sim, contaria-lhes, vezes sem conta, aumentando o que a sua imaginação lhe permitisse, as peripécias da viagem; a grandeza das terras; a multidão de Fátima; o Deus mau que fazia, homens e mulheres, transformarem-se em cobras, arrastando-se pelo chão; o carrinho que ganhara e a forma como enganara o feirante; o carrossel que dizia ter conduzido sozinho e que atirara contra um tipo muito grande que, na sua imaginação, mandara para o hospital!
Contou tudo.
Só se esqueceu da surra que levara.
Disso, nada disse!
Os amigos não precisavam de saber!
Esta seria a primeira das muitas viagens que Danilo, sempre na companhia da avó, iria fazer, pelos anos fora, a Fátima.
Até aos seus catorze anos, voltaria ali, por mais de dez vezes!