quinta-feira, agosto 31, 2006

Á PROCURA DO SOL.








Livro de recordações.







Prólogo




Um bebé nasceu!...

- Oh, ele morre! “Atão” só faz oito meses “p´rá” semana!...
Esta foi a sorte que a avó, à nascença, lhe traçou!

– Como é pequenino! Parece um boneco! Eu nem pego nele. Não dá jeito!

Foi desta forma que foi recebido pela prima descuidada.

Indiferente a tudo e a todos, o bebé foi rasgando as fronteiras do tempo.

Haveria de florir para a maturidade e fazer-se homem.

A vida por mais que lhe recusasse o sorriso da bonança, não o haveria de vencer.
Nascera, de parto prematuro, pequenino de meter medo.
Mas cresceria.
Um dia, na capela da terra, no refrescar da água benta e ao som da melodia do seu próprio choro, ganhou um nome: Danilo!

Agora, aí anda ele, a correr e a saltar, para consumição da avó.

- Ficas-te para grandes alegrias ou para grande desgraça, meu filho da mãe!...


É assim que a avó justifica a sua falhada profecia.
Infância



- Ó Ismael, ninguém atura este estupor. É preciso trocar-lhe os caminhos!...
Era a mãe de Danilo, atarefada nas lides da casa, farta de ouvir o choro insistente do filho, quem no marido, procurava ajuda para acalmar a criança que ia num berrar pegado, há mais de hora.
Artur, pai de Danilo, impaciente na noite mal dormida, ele que se deitara, nas primeiras horas de madrugada e a manhã ainda mal despontara, não estava com grande vontade de sair da cama, que o corpo, cansado de uma jornada, no fundo da mina, lhe pedia.
Ensonado, murmura:

- Deixa-te disso mulher, o menino tem é fome.

- O quê?! Fome?!!! “Atão”, eu não lhe dei, há pouco, vinho com sopas?!

Danilo nasceu pobre.
O pai era mineiro. A mãe doméstica, pescadora e peixeira.
Em casa, vivia ainda a avó materna. A tia Benilde como era conhecida na aldeia. Para além de doméstica, pescadora e peixeira, a tia Benilde era a parteira da terra. Era a ela, a quem as mulheres aflitas, quando as dores de parto vinham, recorriam. Quando a tia Benilde não podia aparar as dores e indicava a necessidade de chamar a parteira ou o Chico do táxi, para levar a parturiente ao hospital, o negro tomava conta das almas e aquele que estava para nascer, era motivo de tristeza.
Ir para o hospital, era prenúncio de morte...
Danilo teve sorte!
A mãe não precisou de parteira, muito menos de ir ao hospital.
A avó Benilde foi a primeira a ver a sua carita e a mostrar-lhe o mundo onde iria viver.
Um berço de balouço, junto à lareira, era, por ora, o local onde Danilo passava os seus dias.

À lareira, sob o fogo de lenha de vide que a mãe apanhara nos campos do Davidinho da Marta, homem rico da terra e dono de tudo em redor, era aquecida uma cafeteira, uma mulata, como lhe chamava a avó.

De súbito, estoirando de calor, o “diacho” da mulata liberta um casco do seu decrépito barro, enegrecido pelo fumo da lenha.

- “Inhé”, “inhé”, “inhé”… grita desesperado, o bebé!

- Vê se te calas, seu desalmado! Gritava mais alto ainda, Aurora, na ânsia de abafar o choro do filho.

- Deixa-o berrar para lá! Já sabes como ele é!... Era a avó, que acordara de má catadura!

- “Inhé”, “inhé”, “inhé”… com toda a força que tinha, continuava o pequerrucho a gritar, à espera que os adultos entendessem a sua aflição.

- Ó cachopa, ele não se cala! Deve ter coisa!...

Tinha coisa, sim! E não era coisa pequena! A lasca desprendida da revoltada mulata embatera violentamente no corpito indefeso do aflito Danilo.


- Vamos lá. Traz-me a bacia que é preciso lavar o pequeno. Deveste-o! Vamos, de que é que estás à espera?!

- Ah sua pu… estupor! Não ligavas ao choro do teu filho e ele tem uma lasca da mulata agarrada ao pescoço que nem uma carraça. Coitado do menino, sua malandra.
- Eu ia lá saber! Ele é um reles! Está sempre a berrar!...


O Danilo cresceu.
Já anda e até diz algumas palavras!
A vizinha não perdeu a oportunidade de lhe ministrar os vocábulos mais requintados da região.

- Vá! Diz puta, nino, diz!

Pu…ta. É este o som que o menino acaba de tirar da sua pura garganta, anunciando na candura do seu coração, os grandes males da sociedade em que vai afirmar a sua existência.


Ao ouvir a voz do menino, qual papagaio, a repetir o som que mil vezes lhe ensinara, a vizinha faz ecoar, ao sol resplandecente, uma gargalhada de triunfo.

O pior foi depois!
Mal arreliavam o pequeno, logo se lhe soltava fácil, o som mil vezes ouvido da boca, sem dentes, da vizinha Amélia: puta!



Danilo crescia!
Não só andava, como até falava a língua dos homens, bem carregada de obscenidades.
Falava e ensinava a filha da vizinha.
Pois! A vizinha não ensinara a filha!...
Esqueceu-se, porém, que o Danilo não só era bom aprendiz, como era melhor professor.
A filha da vizinha - um ano mais nova que Danilo - estava a ficar maestrina na arte do palavrão.



O mês de Maio, também chamado o mês de Maria, aproximava-se, com ele o grande dia.


Na aldeia de Danilo, como em todas as aldeias, é tradição, nesta quadra de plena comunhão entre a virgem e os homens de boa vontade, ao som do gole do garrafão, fazerem-se excursões a Fátima, terra do negócio espiritual e do material.


Como não podia deixar de ser, a tia Benilde, avozinha do Danilo, também lá ia e com uma frequência de fazer inveja às comadres e beatas da terra. A tia Benilde fizera uma promessa, enquanto as pernas lho permitissem, iria a Fátima todos os anos!
Podia não haver dinheiro para o caldo ou para o vestido de cotim, mas para ir a Fátima é que ele tinha de aparecer.

Faltasse para o pão-nosso de cada dia, mas para a excursão e farnel ele nunca faltara e não ia ser agora que ia minguar. Não agora, logo no ano em que a avó, toda vaidosa, ia apresentar o seu menino à Santa da sua devoção.


Esta seria a primeira vez que Danilo sairia da sua terra.
Tinha três anos e meio. Não tinha, por isso, entendimento que lhe permitisse compreender a azáfama daquele dia.
Eram galos que desistiam de cantar, pernas de porco que deixavam de correr.
Tudo aquilo era divertido para Danilo.
A mãe tinha ido ao galinheiro e agarrado pelas asas aquela galinha que Danilo tantas vezes tentara apanhar.
Apanhada a galinha, a mãe atou-a pelas pernas. Depois, tomou-a pela cabeça e por baixo, meteu-lhe uma malga.
Deixou a bicha ali, no chão da cozinha, sem jeito, tombada.
No velho armário da cozinha, procurou a faca mais afiada. Com ela em riste, voltou para o pé da galinha. Voltou a agarrá-la. A galinha bem apanhada, faca em punho, a mãe desfere um só golpe no pescoço da bicha e zás, era uma vez uma galinha, cabeça para um lado, corpo para o outro.
Sem piedade, Aurora, segura o corpo da galinha e deixa que o sangue escorra, para dentro da malga.
Mesmo sem pescoço, a pobre galinha, ainda ia abanando as pernas!
Danilo, tomado de pena, balbucia:
- Coitadinha da galinha!
A mãe, com cara de poucos amigos, atira, secamente:
- Não digas isso, se não a bicha não morre!
- Sem pescoço, como queria a mãe que a galinha não morresse?! Interrogou-se Danilo, ainda a tempo de ver a bicha a dar as três, como ouvia dizer à avó.
Passado o medo, Danilo olha para a cabeça perdida da galinha. Não via nela, o ar de gozo que um dia antes, vira naqueles olhos, agora mortiços, quando, em vão, a quis agarrar.
Excursão a Fátima

Finalmente o grande dia chegou!

- Ó Aurora vai acordar o moço. Olha que são horas!
– P´ra festas não tem você perna manca. Ainda é muito cedo!
– Áh... sua puta! Deus me perdoe! Valha-me Nossa Senhora de Fátima! Se não quiseres, não o levo.


Qual não o levas, qual carapuça! Não era preciso acordar o rapaz. Ele, com uma audição canina, ouvira as últimas palavras da avó. Não havia tempo a perder!... Salta da cama e num pulo está agarrado às saias da velha.


- Veste-o, anda. Vê se te despachas! És sempre assim…
Desta vez, a mãe não teve que fazer grande esforço para vestir o rapaz. O medo de que a avó o deixasse ficar, era tanto, que enfiou as calças de bombazina, de uma só assentada, e pronto logo ficou, para partir.


Atónito na quantidade de cestos, garrafões e outras despensas portáteis, confundido com a vozearia que ecoava a léguas de distância, Danilo chega ao largo da terra e fica à espera que o autocarro chegue.


- Ó avó, a camioneta não vem?

– Vem, vem, não te aflijas, chega já.


A avó sabia!
Eram muitos anos de experiência, feita de muitas viagens a Fátima.
Mal a avó acabara de proferir aquelas palavras e já uma linda caminheta, como ela dizia, chegava.
- Vamos entrar, para arranjar lugar.
Avó à frente, Danilo agarrado às suas saias, os dois entram no autocarro. Era a primeira vez que Danilo entrava num! Tudo era novo para ele. A velha Benilde escolhe um dos lugares da frente, junto à janela, e senta-se. Danilo, de imediato, senta-se no colo da avó.

Pequenino como era, não tinha direito a meio lugar no autocarro, quanto mais, a lugar inteiro!
Mas que aquilo era bom, não havia dúvida. Isso via-se na cara plena de satisfação do netinho da velha Benilde.

- É lindo, não é, nino?!
O abanar significativo da cabeça, era a forma que Danilo tinha de deixar perceber duas coisas: a primeira, de concordância com a avó, mulher sábia, nas suas setenta e mais algumas primaveras. A segunda – o olhar travesso do miúdo, não enganava nunca – era sinal de que não vinha muito contente com a companhia do lado.
No mesmo banco, do lado de dentro do autocarro, ia sentada uma velha. Era tão velha que Danilo tinha a impressão que a velha haveria de cair.
O ar caduco da Dona era acentuado pelo negro que lhe cobria o corpo, da cabeça aos pés. O lenço que levava amarrado à cabeça era negro, como negro era a blusa e a saia de cetim. Ao olhar para a velha, Danilo via nela a figura do corvo que tantas vezes, esvoaçara por cima da sua cabeça, para se pendurar no ramo do pinheiro, mesmo em frente à janela do quarto em que dormia.

A velha senhora ia calada. Tão calada que o seu silêncio era aterrador.
Devia ser promessa!...
Mas disso, nada percebia Danilo. Só sabia que aquela figura lhe metia medo, muito medo. È que a velha, mais negra que a noite, a cada balanço do autocarro, puxava para vomitar, lançando um rugido de arrepiar.


- Que nojo, dizia para si, Danilo.


A viajem começou. Da terra natal arrancam e acompanham o rio Douro que aqui e acolá se esconde para logo voltar a aparecer. Até parecia que queria brincar com Danilo.

Foi assim até ao Porto.
Mesmo no Porto, o rio que Danilo também conhecia, por ter nascido junto a ele, não o abandonara.
De repente o rio desaparece da vista e surge aos olhos de Danilo, um grande rio, um rio sem fim!...

- Tanta água! Exclama, Danilo.

- Ó avó, porque é que o rio, aqui, é tão grande?!

- Aquilo não é o rio filho, é o mar!

- O que é o mar? Pergunta Danilo.

- Olha… É o que tu estás a ver!


O autocarro para.

Estavam em Espinho.

Era tempo para o pequeno-almoço.


- Ó pessoal, vamos parar aqui meia hora! Chega para tomarem qualquer coisita e fazerem as necessidades. Partimos às 9,00 horas. Que ninguém se atrase, temos muito que andar.

Era o tio Manel, o tratante da excursão.


Benilde e neto saem do autocarro.

- Vamos ao café, nino, vamos?

E lá foram os dois, a velha e o menino. Ele sentou-se numa cadeira, à homem, maugrado a sua pequenez na irrequietude dos seus três anos e meio.

- Que desejam? Foi assim que o empregado de mesa se fez anunciar.
- Ora olhe, eu quero uma xícara de chá. Aqui pró pequeno, uma de café, está bem?


O empregado lá se foi lesto, não fosse rebentar de riso, dos modos da velha Benilde, mulher da aldeia pouco habituada a frequência de cafés e à cidade.
De regresso, o empregado de bandeja na mão, aproxima-se de Danilo. Este olha e vê duas minúsculas chávenas, dentro da bandeja.
- Que raio, pensou Danilo. Será aquilo que me querem dar?
È que o raio da chávena, de tão pequena, não dava para lhe saciar a toca de um dente, quanto mais a fome que tinha!
Mas era mesmo. O empregado, põe as chávenas na mesa, colocando à frente de Danilo, a sua.
Irritado, o pequeno grita:

- Eu não quero isto!!! Quero uma malga com sopas!

O café parecia querer ruir ao som das gargalhas, saídas de gargantas secas e cansadas na erosão dos muitos anos de labuta, mas sempre prontas a rir da vida.
O pequenote acabara de fazer a sua primeira reclamação.
O porquê de tanto espanto, não o compreendia ele! Em casa, era sempre assim que lhe davam o pequeno-almoço: o café, numa grande malga, entulhada em sopas de trigo, até não poder mais.


E com isto, as nove horas que o tio Manuel marcara, tinham chegado.

Era tempo de retomar o lugar no autocarro.
A viagem prosseguiu, com destino a Aveiro.


Danilo, cansado, adormece no colo da avó e nem dá conta que o autocarro voltara a parar.
Estremunhado, é acordado pela velha Benilde que, para o animar, lhe aponta uma barraca de brinquedos, mesmo em frente.
É para lá que se dirigem.
A avó pára, a mirar uns carritos de plástico, muito bem arrumados numa tenda de brinquedos.
Aqueles carritos, de plástico, pensou a avó, não deviam custar grande dinheiro e o seu menino, certamente, ficaria muito contente se ela lhe comprasse um.
Estava a avó com estes pensamentos, quando o diabo do miúdo, mais lesto que o vento, pega num dos carritos e desata em correria louca, em direcção ao autocarro!
O feirante não perde tempo e apesar dos seus muitos anos, atrapalhados pela avantajada barriga, desata atrás do pequeno ladrão, procurando, em vão, alcançá-lo.
Num abrir e fechar de olhos, para desespero do feirante, já Danilo desaparecera e se enfiara, bem escondido, no interior do autocarro.
Para conter a ira do perseguidor que impotente, vociferava contra tudo e contra todos, espumando-se de raiva, a velha Benilde lançou mão da sua sabedoria e puxando de uns tantos cobres que sempre trazia dentro de uma saquinha de pano, escondida entre os seus seios, regateou o preço, pagando ao feirante, o que antes da façanha do miúdo, já decidira.

Na ressaca, a habilidade ficou cara a Danilo.
Havia coisas que a avó não perdoava.
Fazer-lhe passar vergonhas, era uma delas.
Chegada ao autocarro, foi direita ao neto e pregou-lhe um bom par de estalos, naquela carita arrependida.
Ele aguentou! Sabia que as bofetadas eram merecidas. O choro só veio quando a avó lhe tirou o carrito.
Esse iria ficar guardado até chegarem a casa.


A viagem prosseguiu.
Danilo embufado, não tugia, nem mugia e assim se manteve até nova paragem.
Agora em Coimbra.


“Portugal dos pequeninos” era visita obrigatória nas excursões do tio Manuel. Danilo, admirado com o tamanho das pequenas construções, olhos esbugalhados de espanto, vira-se para a avó e pergunta-lhe:

- Ó avó, como é que a gente entra nestas casas? Elas são tão pequenas!...
A velha Benilde que também sempre se admirara do tamanho daquelas construções, sem nunca ousara procurar saber o porquê daquela pequenez, pensou, pensou e atirou:

- Sabes, essas são casas do antigamente! E no antigamente a gente era muito pequenina?

- Mais pequena que eu, avó?

- É… mais ou menos!...


Danilo convencido e alegre por os homens do antigamente não serem maiores que ele, entra nesta e naquela casa, feito homem do antigamente, dono e senhor de todo o casario. De tanto entrar e sair que se cansou, carregando-o a avó ao colo e ele, embalado no passo firme da velha Benilde, adormeceu. Nem deu conta que o autocarro já partira e parara novamente, agora junto à Universidade.
Este era outro dos locais cuja visita as excursões do tio Manuel não dispensavam.
Aquela gente, na sua maioria analfabetos de pai e de mãe, sentiam um especial fascínio por aquelas velhas paredes, onde os doutores, gente que não devia ter nascido como eles, estudava, para depois, mandar no País. Era ali que tinha andado o Salazar, ouviam dizer. O tal que a rádio dizia que falava com a irmã Lúcia.
No imaginário daquele povo que do poder e de Salazar, nada mais sabiam que aquilo que ouviam dizer, por falar com a irmã Lúcia, Salazar devia ser Santo. Só podia ser santo!...

Dos homens de poder, aquela gente só conhecia o regedor da terra, homem de copos e de maus instintos que nem o Padre tinha em boa conta.
Um passeio apressado pela parte velha da Universidade que não demorou mais de dez minutos, foi tempo mais que suficiente para aquela gente se bastar, com a sapiência coimbrã e almejar por um pinhal, onde pudessem estender as toalhas para comerem o farnel que, com tanto desvelo, as mulheres tinham preparado.

E assim foi.
O tio Manuel lá deu instruções ao motorista para se dirigir a um pinhal, às portas de Coimbra, no caminho para Fátima, restaurante habitual das suas excursões.


Aqui chegados, os excursionistas desatam a correr para a bagageira do autocarro e num ápice, é vê-los de ceira numa mão e garrafão de 5 litros na outra, à procura da melhor sombra, para se refastelarem com o marendeiro, em casa preparado por mais de três dias.
Ali estavam as galinhas que Danilo vira perder a cabeça, as pernas de porco, o salpicão, a broa de milho e claro, tudo bem regado a vinho americano, branco ou tinto, muito de preferência.

Acabada a refeição, muitos dos excursionistas já não tinham o equilíbrio da manhã.
O vinho americano desaparecera dos garrafões e subira à cabeça daquelas pobres almas.


No caminho para Fátima, o cheiro dentro do autocarro fedia.
Alguns não aguentaram o farto repasto a que não estavam habituados e entornaram, janela fora, os excessos do almoço. Outros, de tão torcidos pelo traiçoeiro americano, deixavam escorrer pelas pernas abaixo, o que deviam descarregar num valado em que o tio Manuel sempre parava para que todos fizessem as suas necessidades.
Quando o valado apareceu, era já tarde…


Á medida que se aproximavam de Fátima, o cheiro fétido do autocarro ia aumentando.
Para alívio de todos, eis que Fátima surge à frente dos seus olhos.
Nesse instante, todos os males são esquecidos e o recolhimento, é o sinal da fé que faz com que todos os anos o tio Manuel tenha clientela para as suas excursões.

Quando o autocarro parou, num recinto, por baixo de umas velhas azinheiras, era já fim da tarde.
A devoção que levara aquela gente a meter-se ao caminho, vem-lhes à face e todos os seus gestos, são agora solenes.
As vozes ficaram quedas e o pensamento vai para a Virgem e para os males que atormentam aqueles corpos vergados às canseiras das vidas.
Todos tinham promessas para cumprir e todos tinham uma fé inabalável nas graças da Senhora.


Homens, mulheres e crianças perfilam-se atrás do tio Manuel que organiza uma improvisada procissão.
A senhora Augusta, beata da aldeia, puxa do terço e inicia uma reza.
Todos a seguem nas suas orações, mesmo a velha que Danilo julgara muda, por, até ali, não ter dito uma única palavra!
Rezadas algumas avés marias e pais-nossos, iniciam um cântico de graças à Virgem Maria que sai destoado das bocas ressequidas de homens avermelhados pelo álcool e que no misticismo do local, se acham transportados para o Céu.


Chegados ao recinto, aumenta o tom dos cânticos e a fé como que redobra perante a presença, ali tão perto, da capelinha das aparições, repouso da Virgem.
Junto à capelinha, reza-se o terço. Terminado o terço, cada um, acompanhado da sua fé, parte para satisfazer as promessas que ali os trouxera.
Nesse entretanto, já Danilo se afastara, admirado com aquelas pessoas que de joelhos, se iam arrastando, a caminho e à volta da capelinha.
Danilo via nos olhos daquela gente, o sofrimento da vida que as levava a tamanhos sacrifícios.
De joelhos, de rastos, joelhos e braços, a escorrer sangue, aquelas pessoas persistiam em caminhar, quando no seu rosto de dor, se via a vontade de ali ficarem deitados, esquecidos dos males que queriam curados.
Estava Danilo tão especado, perante aquele quadro de dor e sofrimento que, por momentos, esquecera a avó.
Quando voltou a si, receoso do Deus que obrigava aquela gente a tão grandes tormentos, agarrou-se à primeira-mão que lhe apareceu!...
Ao contactar com a mão que queria protectora, Danilo estremeceu, aquela não era a mão da avó Benilde! Vai daí, larga aquela mão estranha, receando que fosse a do Deus que obrigava os homens e mulheres que antes vira, a arrastar-se chão fora, como se fossem cobras! Desata a correr, desnorteado. Queria a protecção do autocarro. Esbaforido, entra no primeiro que lhe aparece.
Azar!
Aquele não era o dele.
Estava Danilo a tomar ares, quando uma velha senhora lhe diz:
- Vem cá, meu menino!

Danilo fitou-a, com ar desconfiado.


- Vem cá que eu não te faço mal! Insistia, a senhora.

Era o que agora lhe faltava. Não a conhecia de lado nenhum e queria que ele confiasse nela!
Com a velocidade com que entrou, saiu e enfiou-se noutro autocarro que estava junto àquele.
Voltara a enganar-se!
Outra velhota a chamar por ele. E ele outra vez a correr.
Andou nisto por mais de dez autocarros!
Cansado, aflito, com uma lágrima a fugir-lhe pelos seus olhitos verdes, pensa na avó e lembra-se de pedir à Senhora de que a avó lhe falara, para que a trouxesse de volta.
Desanimado, entra em novo autocarro e, de repente, os seus olhos alumiam-se de alegria!
Ali estava o seu autocarro!
Triunfante, entra nos aposentos perdidos.


- Á meu malandro! Por onde andas-te tu?! A tua avó anda por aí a chorar, aflita, à tua procura!


- Meu filho da …

- Não me largasse a mão, responde Danilo, trémulo, ao ver a cara molhada da avó.

- O que havia de ser de mim?! Chegar a casa sem ele!!!
– Você tem a mania de trazer os filhos dos outros! Era o tio Manuel que assim falava, na sua voz rouca e forte.
- Filho dos outros?!!! O homem era mas é burro! Então avó, não é mãe duas vezes?!

Mãe duas vezes era a avó, mas isso não lhe valeu, na hora em que ela lhe deitou a mão em cima!
O castigo foi pesado.
Uma surra, daquelas de não esquecer e daí, até ao fim da viagem, a vigilância apertada do tio Manuel que não mais, o perdeu da vista.


Depois da procissão das velas e de um sono descansado, junto ao recinto e sob a protecção das azinheiras, ali bem próximo da capelinha das aparições, os excursionistas iniciam a viagem de regresso a casa.


Danilo iria conhecer a Nazaré, terra de pescadores e de varinas e, depois, a Figueira da Foz, com a sua grande e esplendorosa praia, perenemente enamorada do mar.

No caminho, Danilo já esquecera a surra da avó e iludira a vigilância do tio! Na Nazaré, Danilo fica na praia a admirar a salga dos carapaus, pronto a fintar a varina que os guardava e provar o sabor daquela forma, para ele desconhecida, de conservar o peixe.
Mais adiante, a velha Benilde já cansada das paragens e fitas do neto, perde a paciência:


- Vamos embora Danilo, são horas do autocarro partir!

- Não vou! Não vou!

Danilo mirava, mais uma vez, uma tenda de brinquedos!
– Anda daí!

Ele, nada!
Se apanhasse a avó distraída e o homem da tenda…
- Não ouves? Vens, ou não vens, seu estupor! Olhe que eu levo-te pelas orelhas!


- Ai é. Pensou Danilo. Eu digo-lhe já como é! Murmurou para si.

Se bem o pensou, melhor o fez! Antes que a avó lhe adivinhasse as intenções, Danilo descalça as botas, estreadas no passeio e que de tão duras eram um martírio para os seu pés e atira-as para um quintal, cercada por um muro que de tão alto, desanimava qualquer um que pensasse em o trepar!
Por cima, lá dentro, faziam-se ouvir uns cães…

A avó barafusta, diz que faz e que acontece.
Danilo livre das botas e habituado que estava a andar de descalço, recupera a liberdade para os seus pés, fartos dos malditos apertos.


Chegados à Figueira da Foz, os mais novos são surpreendidos com a presença de uma pista de carrosséis, bem próxima do local em que o autocarro parara.


Danilo aproveita a gentileza de um rapazote que interessado na prima, se serve dele, para conseguir mais uns momentos, junto da sua pretendida e, para isso, lhe oferece umas voltitas no carrossel!

O pretendente da prima, porém, não tinha grande jeito para aquelas engenhocas.
Logo à primeira volta, uma travagem brusca, atira Danilo para a frente e faz com que ele bata, com violência, na chapa do carrossel.
Em pouco tempo, um enorme galo surge na cabeça de Danilo!
O raio do galo, era como a maioria dos homens que Danilo conhecia! Gostava de vinho, até dizer chega!
Depois de muitos emplastros, de vinho tinto, colocados na testa, o galo começou a desaparecer.
Danilo só não sabe, se foi do vinho ou das rezas que a avó fez, à sua santa predilecta.
À custa de tanto vinho darem ao galo que atordoaram Danilo!
A viagem de regresso foi feita a dormir.
Quando acordou, já estava no largo da sua terra.

Cansado, chega a casa. A vontade de contar as façanhas da viagem era muita. Mas o sono venceu-lhe a língua e nem pernas teve para se deitar. A mãe pegou nele ao colo e colocou-o na sua camita, ao lado da cama da avó, onde sempre dormia.

No outro dia, preparava-se Danilo para fazer o seu relato, quando ouviu a avó dizer à mãe:

- Nunca mais o levo! Parecia que tinha o diabo no corpo. Eu nem conto, que só visto!

- Eu não lhe dizia?! Não o levasse!

Depois disto, Danilo o que queria, era que a avó não contasse mais nada!... Por ele, a mãe ficaria na ignorância.
O dia prosseguiu.
Com ele, as preocupações da vida tomaram conta do tempo da avó e da mãe e ninguém mais se lembrou de inquietar Danilo.
Ele também já mergulhara nas suas brincadeiras, acompanhado dos amigos de sempre.
A eles sim, contaria-lhes, vezes sem conta, aumentando o que a sua imaginação lhe permitisse, as peripécias da viagem; a grandeza das terras; a multidão de Fátima; o Deus mau que fazia, homens e mulheres, transformarem-se em cobras, arrastando-se pelo chão; o carrinho que ganhara e a forma como enganara o feirante; o carrossel que dizia ter conduzido sozinho e que atirara contra um tipo muito grande que, na sua imaginação, mandara para o hospital!
Contou tudo.
Só se esqueceu da surra que levara.
Disso, nada disse!
Os amigos não precisavam de saber!
Esta seria a primeira das muitas viagens que Danilo, sempre na companhia da avó, iria fazer, pelos anos fora, a Fátima.
Até aos seus catorze anos, voltaria ali, por mais de dez vezes!
A amiga Marta

No bairro duas crianças brincam.

Uma, um rapazito semi-nu, com uma grande camisa que trazia enfiada cabeça abaixo e que lhe cobria o corpo até aos joelhos, sem verdadeiramente nada lhe tapar, tão grande era a desproporção entre o velho trapo e o tamanho do pequeno.

É um lindo menino, de olhos esverdeados, cabelos de um ruço acastanhado, irrequieto que transpira vida por todos os poros da sua pele morena.

A outra, uma menina, vestida com uma saia esfarrapada, de cabelos pretos, como o alcatrão da estrada, com olhos cor das amoras maduras.
Nos seus gestos lentos, adivinha-se-lhe a presença da doença, uma bronquite crónica que raramente a deixava em paz.

As duas crianças brincam, indiferentes ao tempo.
A noção do que se pode e deve fazer, é que nem sempre estava presente nas brincadeiras…


- Ó Aurora olha o teu filho que me mata a pequena!


Danilo entretinha-se a tapar a boca à Marta, sua companheira de brincadeira.


- Aí a minha pequena!


Quanto mais gritava a mãe de Marta, mais Danilo lhe tapava a boca!


- Aqui d’el rei que ele mata a minha menina.

Gritava a mãe da Marta na precisa altura em que ela, por força de tanto se esforçar para respirar, desmaiara!


- Acudam a minha menina que ela caiu com um acidente!

Danilo fugia, em correria louca, caminho abaixo, querendo afastar para longe, o mal que tinha feito! Só que, atrás dele, vinha uma vassoura, arremessada ferozmente por sua mãe que o apanhou no caminho e se lhe atravessou entre as pernas, arremessando para o chão!
A violência com que a vassoura lhe acertou, fez com caísse, desamparado, mergulhando de cabeça nas pedras do caminho, para, não mais se levantar! Também ele desmaiara, por força do tombo.
Agora era Aurora, mãe de Danilo que gritava:

- Aí que o matei!


No outro dia, as duas crianças já tudo tinham esquecido na noite de sonhos soltos e felizes.
Juntas, brincavam de novo, mansamente, ao som das melodias de amor, saídas dos bicos de multicolores passarinhos, abraçados pela vigilância paterna do sol.


-Vamos brincar às casinhas? Desafiava Danilo.

Marta, prazenteira, responde:

- Vamos!

- Então brincámos ao Senhor Doutor – dizia Danilo – eu sou o médico!
E lá brincavam eles, ao médico e à doente.

- Não é assim! O meu primo disse-me que…
Marta não acabara a frase, alguém, os espreitava!
O esconderijo que tinham escolhido para as brincadeiras, estava a ser devassado. Há que fugir!

Afinal, não havia razão para medos. Os espiões eram outras crianças que mais não queriam que juntar-se à brincadeira.
O primeiro triciclo

Era manhã, bem cedo.

Danilo acorda às ordens da mãe.

Que quereria a mãe desta vez, pensou ele.

- Hoje vais connosco à Cantina! Disse-lhe a mãe.

O rapaz pulava de contentamento.
O que é que lhe iriam oferecer?! Matutava ele. Sim! Levá-lo à Cantina, haveria de ser para coisa boa…

É que o moço fazia anos! Seis anos!

A Cantina da Cooperativa ficava na margem do rio, contrária àquela em que Danilo vivia.

Danilo ouvia falar da Cantina, mas nunca lá tinha ido.
Da Cantina, sabia que vinha a mercearia para os amigos, cujos pais trabalhavam nas minas do Pejão.

O pai de Danilo, há já muito tempo que deixara de trabalhar nas minas.
Agora trabalhava no Porto.
Por isso, a mula da Cooperativa, camioneta que todos os meses visitava a aldeia, com os caixotes da mercearia, comprada na Cantina pelos Mineiros e que era paga pelo desconto, no minguo salário que o “Jack Tissene” lhes pagava, não trazia nada para Danilo.

Ele ficava ali, a olhar para os caixotes e a imaginar o que é que trariam.
Que sorte, a dos amigos!
Para ele, não vinha mula nenhuma...
Porque é que o pai deixara de trabalhar na Mina? Perguntava-se, nessa altura, vezes sem conta.

Danilo, na companhia do Pai e da Mãe, desce os campos que ladeiam a sua casa e chega a casa do tio.
O tio, homem do rio, é quem tem o barco de que precisam.
A mãe de Danilo, irmã do dono do barco, já sabia onde estava a chave do aluquete que prendia o cadeado que o segurava a terra.

O pai e a mãe de Danilo remam vigorosamente, em direcção à outra margem.

No meio do rio, a mãe já tinha rogado todas as pragas que sabia, perante a falta de habilidade do pai para as artes do rio, a que não estava habituado.


A Danilo a viagem pareceu-lhe estranhamente curta.
A sua curiosidade era tanta que nem reparara nos modos estranhos com que o pai agarrava a pá do barco.
Não fosse a mãe e nunca chegariam à outra margem!...

Chegados à margem, por um estreito carreiro, os três treparam, até que chegaram a uma estrada.
Ao fundo de uma recta, lá estava a Cantina, atarracada no seu comprimento longo, com as suas brancas paredes, aqui e ali salpicadas de negro, um negro do carvão que os seus sócios, os mineiros, traziam agarrado ao corpo.


Danilo corria de um lado para o outro. Ora mexia aqui, ora ali!

O seu pai estava parado, em frente dos triciclos!
Olhava e voltava a olhar, apreciando cada um dos triciclos expostos.

Danilo, de um pulo, cola-se ao pai. E se ele, lhe desse um?!
Aí que alegria!

- Gostas Danilo?! Pergunta-lhe o pai!

- Gosto!... Conseguiu balbuciar Danilo, não querendo acreditar na sorte que parecia estar-lhe destinada.

- Olha aquele acolá, é bonito, não é?! Insistia o pai.

- É! Responde o filho.

- Despache-se, homem! O que eu quero é um! Não vê que todos são bonitos! Pensava Danilo sem se atrever a dizer, fosse o que fosse, tal era o medo que o pai mudasse as ideias que lhe parecia ter!

- Gostavas de ter um?! Atirava-lhe, novamente, o pai.
- Queria! (Isso de lhe perguntar se gostava de ter um…ele não gostava, ele queria ter um. E como queria!)

- Olha, eu vou-te dar um. Mas quero que te portes bem! Percebes?
Danilo apenas conseguiu abanar a cabeça.
A surpresa tolhera-lhe a voz!

- Escolhe aquele, de que mais gostares!

Qual escolhe! A sorte estava ali, à sua mão. Não era todos os dias que se ganhava um triciclo.

Danilo, vai ao primeiro que lhe aparece e deita-lhe a mão. Aquele seria o seu primeiro triciclo!

Triciclo seu… foi festa até chegar a casa.


Dois dias após, a mãe já se arrependia de ter convencido o marido àquela generosidade.


Danilo, ao experimentar a máquina, mesmo ali no pátio da casa, deu tamanho tombo que, de uma só vez, avançou oito escadas!

A pele que escorria sangue era o menos importante para as preocupações da mãe. O pior, era os vasos que se tinham partido.
Lá se foram as magnólias que a mãe, com tanto carinho, tratara.

O triciclo nada sofrera!
O resto, pouco importava a Danilo! Nem o sangue que lhe escorria dos braços, muito menos os vasos, ainda que o mesmo não pensasse da má disposição da mãe…


Devido às insónias do tombo do dia anterior e à privação da sua máquina, Danilo acordou sobressaltado. Nem se lembrou de enfiar as calças. Enfiada no seu corpito, a larga camisa do pai, foi o suficiente para que rumasse à rua.


Estava Danilo na berma da estrada, na entrada do caminho que dava para sua casa, quando com ele, cruza uma professora, toda catita, no colorido dos seus lábios e unhas, pintados de um vermelho berrante. Emproada nos seus cabelos ruivos, olhos meigos e estatura harmoniosa, num sorriso que lhe saiu caro, adverte o pequeno:

- Á seu porco! Vá-se vestir, mas depressa!


Chamar porco a Danilo?! Não perdesse ela, pela demora!
Ainda a frase não terminara na boca húmida da atrevida e já as mãos de Danilo, numa rapidez louca, qual pistoleiro do Texas, voavam para o fundo da sua barriguita e com toda a força da sua garganta, ao mesmo tempo que exibe a sua “molhada” diz:

- Pega!

Perante a estupefacção da professora, ruborizada na indelicadeza do catraio, já este se tinha deitado a correr, só parando em casa.
Na Escola


Danilo fazia sete anos.

Não era o dia de anos que tirava o sono a Danilo.
Na sua terra, terra de gente pobre, o dia de anos não merecia mais cuidados ou tratamento diferente, dos restantes dias.
Dia de anos, era dia igual aos demais. Não havia bolo, nem espumante. Ao meio-dia comia-se o caldo e os restos que sobrassem da venda do peixe que a mãe, manhã cedo, sempre fazia, calcorreando de cesta à cabeça, as ruas da terra. À noite, o conduto seria servido, carne de porco se a houvesse ainda na salgadeira ou no fumeiro, ou galinha, que não pusesse ovos ou galo a mais que houvesse na capoeira.


O dia seguinte ao dos seus anos, esse era o dia porque temia Danilo!


- Tens que te lavar, bem lavado, que amanhã vais para a escola!
– Num vou! Dizia Danilo para sua mãe, com cara de emburrado.

Mas foi mesmo!

Aquilo, até que nem era mau!
Estavam lá todos os seus amigos e muitos outros meninos que apenas via, quando com a sua mãe, ia à missa.


Pela mão de Fernando, mais velho quatro anos, Danilo entra na sala de aulas.


- Vens todo bonito, Danilo!

Foi assim que a professora o recebeu, deixando escapar um breve sorriso.


E até ia! Não era pela professora o estar a gabar, mas naqueles calçõezitos, de azul-marinho, camisa às riscas com “divisas à tenente” como dizia a avó, nem parecia o Danilo de há umas semanas atrás.


“Gabai-me a fazenda, e não espereis pela demora”, costuma dizer o povo, por estas bandas!


Mal tinha acabado de chegar à escola e Danilo já estava a fazer das suas. Aproveitando uma saída da professora, não resistiu a experimentar o giz de cor que estavam ali, mesmo à mão, dentro de uma caixa, no bordo do quadro preto.
Pega na caixa. Há que a abrir. As suas mãos pequenitas não a conseguem, porém, segurar! Esta tomba, espalhando o giz, por tudo quanto é canto.


A professora quando entrou e viu o seu giz espalhado pelo chão, não perdeu a oportunidade de fazer actuar a régua, com que ministrava o castigo aos alunos que não se portassem como ela queria, ou que não aprendessem o que ela não lhes ensinava…
Esta professora, passava mais tempo a dar à língua com as comadres que dentro da sala de aulas!


Aprender o a, é, i, ó, u, não foi difícil para Danilo.
Juntar as letras é que já lhe custou mais…


Danilo anda cá. Vamos à leitura.


- Era uma vez, a menina do capuz vermelho …começou Danilo a ler, soletrando, letra a letra. Mal apanhou a professora distraída, no tom mais inocente que conseguiu arranjar, virou-se para ela e com voz firme, disse-lhe:

- Já acabei Senhora Professora!
A professora, de volta dos seus pensamentos longínquos, nem reparara que o aluno saltara mais de metade da leitura!

– Muito bem, Danilo. Podes ir para o teu lugar!

Danilo, rapidamente, apreendeu a conhecer as fraquezas da professora.
E como sabia enganá-la.
O talho, o falar do alheio, eram as grandes preocupações da professora.
Os alunos, esses que se desenrascassem!


As favas pagou-as Danilo na 2.ª classe!


D. Fernanda era a sua nova professora. Mulher alta, forte, a pender para o gordo, com uma fisionomia de homem. Quando tocava a bater, era de uma ponta à outra da classe. Ninguém lhe escapava! A todos, D. Fernanda, inspirava respeito, fundado no medo.

D. Fernanda era mesmo má!

Querem saber o que ela fez com Danilo?


- Danilo faz a leitura de hoje.

- Qual é a lição? Diz-me! Era Danilo aflito, ferrando os dentes de atrapalhado, a perguntar ao vizinho do lado.
Depois de obtida a informação, Danilo entoa uma lenga, lenga, cujo som se assemelhava a “pchatlin”, “tchin”, “pchlin”!
– Isso é que é ler? Anda cá! Lê aqui! Mas depressa! Vamos.
Danilo olhava, olhava e as letras fugiam-lhe. Não havia modos de as juntar. Da sua boca não saia nada. Nem uma palavra!
– Bem, meu menino! Não há nada a fazer. Tenho que chamar a D.ª Helena.

D. Helena, tinha sido a professora de Danilo, na 1.ª classe. Dava aulas na sala ao lado.

Chegada à sala, D.ª Helena, pergunta a D.ª Fernanda:
- Que há colega?!

- Aqui este – este era Danilo – não sabe ler patavina! Não sei como pôde passar para a segunda classe!


Esta afirmação feriu o orgulho profissional de D.ª Helena. Ela era professora, há mais de vinte anos e nunca ninguém lhe fizera tamanho desaforo. Não ia agora ser uma sirigaita, saída do Magistério, há meia dúzia de dias, a fazê-lo! Não ficaria sem resposta!...


- Mas colega, ele o ano passado lia muito bem! Não é possível que se tenha esquecido de tudo, nas férias!
– Danilo, vem cá!

Abre o livro e:

- Lê aqui!

- Ca…dei…ra, soletrava Danilo, aterrorizado, na vigilância de quatros olhos furiosos.

- E aqui!

E Danilo lá voltava a soletrar, conseguindo com D.ª Helena, o que não lhe saia com D.ª Fernanda!

- Vê, colega. O miúdo sabe ler. Tem é que ter paciência com ele! Se a colega o assusta, não pode querer que ele leia! É o medo, colega, é o medo! Tem que moderar os seus modos...


D.ª Helena estava vingada.
D.ª Fernanda, engoliu, mas não ficou convencida. Não conseguira devolver Danilo à primeira classe, mas relegou-o para a fila junto à parede, conhecida, entre os alunos, pela fila dos burros.

Essa humilhação, não a suportava Danilo.
Como lhe custou ouvir o gozo dos colegas!


Terminada a aula, no caminho para casa, Danilo já estava farto de ouvir os colegas dizer:

- Foi para a fila dos burros! Foi para a fila dos burros!

Ao cruzar com a mãe de Danilo, as crianças não perderam a oportunidade de dar mais uma ferroada em Danilo:
- Ó ti Aurora, o Danilo foi para a fila dos burros! Diziam eles, todos consolados nos seus dentes podres.


A mãe de Danilo não perdeu tempo. Procurou numa prenda adoçar a professora. Depois, fez-lhe o choradinho. E foi o bastante. Na terra, esta é táctica que resulta sempre. Engorda-se o porco e depois, é que se o come!


Da fila dos burros, Danilo passou para a carteira mais próxima da professora e até teve direito a aulas extras.
D. Fernanda convertera Danilo no seu aluno predilecto.
Até o levava para sua casa!


Danilo recuperara o estatuto de primeiro.
As letras já não lhe fugiam e as contas eram feitas com acerto.
Não lhe custou fazer a segunda classe.

Quando as aulas terminaram, foi com pena que Danilo viu D. Fernanda partir.
Nunca mais a viu.


As aulas extras de D. Fernanda fizeram-se sentir na terceira classe.
Danilo já não precisava dos choradinhos da mãe. Era agora, dos preferidos da senhora professora.
O rapaz até sabia das aritméticas que tantos custavam aos colegas!
Voltou a ocupar na sala de aulas, a chefia. Era ele quem via se os colegas tinham feito os deveres de casa e quem apontava no quadro, o nome dos faltosos.
Danilo exercia essas funções sem grande zelo. Havia um camarada que nunca fazia os deveres de casa. Porém, nunca Danilo lhe apontava o nome no quadro, livrando-o das reguadas.
Não o fazia, porém, de graça!
A sua vigilância era traída, a troco de algumas maças ou peras que o colega trazia de casa e lhe entregava durante o recreio.


A professora, um dia, descobriu-lhe o negócio!...
- Os teus deveres? Perguntava Danilo, com ares de inquisidor.
- Eu não fiz. Não digas nada que eu dou-te botões!
– Não quero. Põe-te de pé!

- Tu?

- Ó Danilo, eu não fiz – murmura o Tono e ainda mais baixinho, implora:

- Não digas nada que eu trouxe maças!

- Está bem. Mas está calado!

- Danilo, quem não fez os deveres – pergunta a professora.
- O Zé Maria, o Augusto e…

-… O Tono, também não fez – era o Zé Maria que percebera a combinação entre o Tono e o Danilo.
- António mostra-me os teus deveres! Exigia a professora.
- Não fiz! Responde António, tolhido de medo.
- Danilo mostra os teus, também!

- Não fiz!

- O quê?! Ora mostra-me o teu caderno!

- Com que então! Tu nunca tens feitos os deveres?! Eh!


Danilo pagou a dobrar! O seu nome foi gravado na lousa dos preguiçosos, que a professora mandara fixara no meio da parede, ao fundo da sala, mesmo por baixo do crucifixo e ainda foi obrigado a fazer vinte e quatro cópias.


O ano chegara ao fim, Danilo ia agora de férias, a caminho da quarta classe.



As férias grandes são a primavera dos estudantes!
No princípio, são o florir da alegria, nos longos espaços de tempo, sem nada para fazer.
Depois, a alegria começa a murchar e o pensamento vagueia até à sala de aulas, procurando no acolhimento das velhas carteiras de madeira, o conforto do convívio diário com os amigos.
O Rouxinol


Danilo dera um salto até ao ribeiro. Nele, com os amigos, passara a tarde, em gritos e mergulhos.
No caminho para casa, uma velha meteu-se com ele. Não tendo gostado da resposta que Danilo lhe dera, atirou-lhe:

- És rouxinol e basta!


Naquela noite, sentado próximo da velha lareira, à espera que a sopa aquecesse para jantar, Danilo estava muito quieto e com ar pensativo.


A avó, pouca habituada ao ar melancólico do neto, pergunta-lhe:
- Que tens?

Arrancado ao seu mundo de fantasia e sonho, Danilo vê naquela interrogação, o maná caído dos céus, na aridez da sua curiosidade.
- Avó, porque nos chamam rouxinóis?!

- É por causa do teu falecido avô! Quando ele era novo, como tu, trepava às figueiras que nem um gato. Depois, lá em cima, enquanto apanhava e comia os figos, assobiava lindas cantigas, como só ele sabia fazer! O teu avô, para subir às árvores não havia melhor e para assobiar, era com ele! Um dia…(a avó, parara, presa à memoria e às gratas recordações que a lembrança do marido lhe trouxera)

- Conte avó, conte!...
-Um dia, eu e o teu avó…aquilo é que eram tempos, c`os diabos! Eu e o teu avô fomos à lenha, p´ras bandas do Couto. Havia lá um pinheiro de reserva, com muitas caneiras! O teu avô, pé cá, pé lá, foi até à crista do pinheiro, enquanto o diabo esfrega um olho! Num instante, deitou lenha cá para abaixo que chegou e sobrou para os nossos feixes. O pior, foi que o Zé da Marcelina andava ali por perto!...

- Quem era esse Zé da Marcelina, avó?

- Era o dono daquilo! Por sinal, ainda era da nossa família. Mas não era grande traste. O teu avô, estava a descer do pinheiro e ele a desassossegá-lo!
- (Anda, anda meu melro que a lenha vai ficar-te cara!)
- O teu avô era homem de poucas falas. Só lhe disse:
- Retira-te enquanto vais sozinho!
- (Isso é que era bom! Vais-mas pagar. Aí se vais!)
- Sabes – dizia a avó – o diabo do homem tinha fama de mau, era meio tolo, trazia ao ombro uma enxada.
O teu avô desceu lesto e lá bem do alto do pinheiro, atira-se a ele e de chofre, encavalita-se nas costas do da Marcelina.
Olha, deu-lhe tamanha coça que o deixou tombado!
- E depois avó e depois?


- Depois, nós viemos embora e ele ficou lá!...
Pesca do sável

As férias grandes chegaram ao fim.
Danilo entrava pelo quarto ano consecutivo na sua escola.

A professora de Danilo voltava a ser a D.ª Helena, a professora malandra, como era conhecida. Seria ela quem iria martelar as mãos e a cabeça de Danilo. Á custa de reguadas pensava a professora que os alunos ficariam a saber o que ela nunca lhes ensinara!...


Nesse ano, chegado o mês de Dezembro, Danilo iria aprender as artes da pesca do sável e da lampreia.

Logo que a escola acabava, era ver Danilo, a correr para o grande areal que da sua terra se entendia para baixo, rumo a Pedorido e para cima, em direcção a Sebolido.

Naquele ano, andavam na faina do sável e da lampreia, cerca de vinte barcos. Todos no areio de Hortos e de três terras diferentes. Os de Rio Mau, donos do areio, os de Pedorido e os de Midões que naquele ano, por ouvirem dizer que a sorte no areio de hortos estava a ser boa, o preferiam aos seus.

- O Manel, ouvi dizer que apanhas-te mais de cem, num único lanço?

- Cento e quatro, mais oito lampreias, foi o que foi!

Esta conversa, na tasca do Viana despoletou a correria dos pescadores das redondezas, ao areio de Hortos.

Tudo se ia passando, no mais sadio convívio, até que um dia, um barco estranho, apareceu na praia, chamavam-lhe a rede da pancadaria!...

A razão do nome ficou justificada, logo no primeiro dia em que aquele barco chegou.

No areio de Hortos, a tradição mandava que os lanços se fizessem à vez.
Os barcos tomavam a sua vez, em função da hora de chegada do patrão do barco ao areio.
Cada embarcação tinha quatro pessoas. Duas no barco, que desenhando um arco no rio, ia largando as redes, ao mesmo tempo que, em terra, outras duas seguravam a rede, agarradas a uma corda, correndo areio abaixo. Essa corda era puxada até uma estaca, pregada ao solo, a cerca de 50 metros do leito do rio. Quando chegavam à estaca, os pescadores engatavam nela a ponta corda. Depois, corriam o mais que podiam, até alcançar os que vinham do barco. Estes, lançada a rede, faziam o barco chegar a terra, à força de remos. Chegados a terra, os pescadores puxavam o barco para seco, só o suficiente para ele não fugir. Abandonavam o barco e agarrados à outra ponta da corda, puxavam as redes. Os outros dois juntavam-se aos do barco, e todos, dois em cada ponta da corda, num esforço sincronizado, puxavam as redes para terra. Quando o fundo da rede se avistava, e se trazia peixe, logo dois pescadores, deixavam a corda entregue aos outros e iam para o fundo da rede, agarrando-a e puxando-a para o ar, para que o peixe não saltasse para fora. Depois, lentamente, a rede ia-se aproximando de terra, cercando o peixe, até que este era arrastado para a areia e chegava às mãos dos pescadores que o atiravam para terra firme.

Aos rapazes, como Danilo, cabia ir à estaca tirar a corda e trazer o barco, até ao local onde as redes eram puxadas.

A esta operação, os pescadores chamavam-lhe lanço.

A primeira vez que o barco da rede pancadaria se fez ás águas barrentas do Douro, houve sarilho.
Os lanços eram feitos, à vez, pela ordem de chegada ao areio.
Os da rede da pancadaria não tinham todos os seus pescadores e, por isso, perderam a vez.

Em sua vez, saltou a embarcação do tio de Danilo, o mestre Joaquim, como era conhecido. Homem experimentado nas artes de pesca e respeitador dos costumes. Todos os outros o admiravam e lhe queriam bem.
Os da rede da pancadaria não eram pescadores. Eram gente nova que resolvera ir para o rio. Das artes da pesca, pouco sabiam. Dos costumes e das regras do Areio de Hortos, então, não sabiam nada!

O barco do tio Danilo tinha tido sorte. Em boa hora fizera o lanço na vez do barco da pancadaria. O lanço valera quarenta e nove sáveis. Dos grandes. Deviam ser de milharas.

A seguir, os da rede da pancadaria fizeram o seu lanço que deu seco.
Fosse pela falta de sorte, fosse pela falta de arte, não tinham pescado nada.

Ao chegar à Dona, local situado mesmo no fim do areio de Hortos e onde as redes eram puxadas para terra, um deles resolveu ir tirar satisfações com o tio de Danilo.

Não estava contente por o velho pescador ter feito o lanço à frente do deles.

Palavra puxa palavra, sem se saber bem porquê, um dos homens da rede rebelde, atira-se ao velho pescador, apanhando-o de surpresa.

O velho foi ao chão!
O outro, homem novo, com idade para ser seu filho, mete-se em cima dele, procurando sufocá-lo!

Foi o atear do rastilho…

Eram gritos, correrias loucas, o brandir de paus! Mulheres esgadelhadas uivavam de raiva! Homens rudes sangravam de cabeças rachadas.

Era uma autêntica batalha campal!

Danilo vê a mãe correr quem nem uma desalmada! Os seus cabelos soltos esvoaçavam, batendo-lhe, furiosamente, nas costas. Na mão levava uma pedra que ameaçava fazer estalar alguma cabeça descuidada!

Em correria desenfreada, ia um, dos outros tios de Danilo, agarrado a um grande pau.

Danilo só então percebeu.

O velho pescador que tinha sido agredido pelo da rede da pancadaria, era seu tio.

Danilo e seu primo Artur, neto do agredido, correm lado a lado, cada qual com o seu calhau na mão!

Aquilo era um autêntico pandemónio!

Uma das primas de Danilo agarrara-se às partes baixas do agressor que nos seus intentos vis, ia sufocando o pobre do velho pescador, presa fácil no cansaço dos seus muitos anos de vida. Apesar dos urros de dor que o agressor desesperadamente lançava, não havia maneira da prima o largar! Só o fez, quando o malandro largou o pobre velho!


Nesse entretanto, chegou-se a ele o outro tio, o que vinha munido de pau. Desfere-lhe uma valente pancada nos costados. Ele arquejou de dor. Mas foi a pedrada que a mãe de Danilo lhe arremessou à cabeça que o fez tombar.

Caiu, como morto!

Mal esse caíra, já um godo, em voo planado, embatia na testa doutro tripulante da embarcação maldita!
Eram berros, gritos e sangue, muito sangue!
Braços, em vão, tentavam, repor a concórdia.

Era o fim! …


No outro dia, o enfermeiro teve trabalho redobrado.
Saturara muitas cabeças partidas. Recolocara no lugar, muitas costelas.
Foram muitos ossos que tiveram de ser entalados!

Aquela guerra, teve o condão de refrescar os ímpetos, aos fogosos pescadores da rede da pancadaria. Ficaram cientes de que só por muita sorte continuavam no mundo dos vivos.

No Areio de Hortos nunca mais ninguém os viu!...


O peixe continuou a sufocar, puxado para o areal pelas redes dos pescadores.




Uma boa tarde, Danilo resolvera fazer das suas! Fora mandado a casa buscar a merenda da mãe que labutava na infelicidade do sável, o sustento da família.
Não esteve com meias medidas. Vai à garrafa do vinho destinado à mãe, mete-a na boca e de uma só assentada, toc-toc-toc, encaixa no estômago um litro de vinho!
Ficou bêbado, quem nem um cacho!
Ao chegar ao rio, não se segurou na curva do caminho e caiu à água!

A sua sorte, foram umas ervas, às quais se agarrou e o socorro pronto, do tio Bernardo que ouvira os seus berros de aflito e correra em seu auxílio, a tempo de o agarrar, antes que mergulhasse nas águas fundas e escuras do Douro.
O Exame


O fim do ano lectivo aproximava-se, com ele a azáfama do exame.

Numa bela tarde, D. Helena dá um recado aos alunos. Os pais teriam que ir falar com ela.

O pai de Danilo não estava.
Trabalhava na grande cidade.
Em vez dele, foi a mãe.

A professora, mais astuta que uma raposa e ladina como um lobo, lançou as malhas, procurando tirar proveito da ignorância e da humildade dos pais dos seus alunos.
Quis falar a sós, com cada um deles!
Chegou a vez, da mãe de Danilo.

- Então D.ª Aurora, como vai?! Sabe, chamei-a aqui por causa do exame…É que eu estou com medo de levar o Danilo! Ele…

- Se a senhora professora vê que ele não sabe, não o leve – atirou D.ª Aurora, secamente. Ela já conhecia, de ginjeira, a D.ª Helena…

- Bem! Eu não queria dizer isso. É que…




Finalmente o dia do exame chegou. Era a primeira vez que Danilo pisava a sede do concelho.
- Tantas casas, tanta gente na rua – diziam os rapazes, uns para os outros, surpreendidos pelas diferenças com a sua aldeia.


Naquele dia, só os rapazes iam fazer exame.
As raparigas iam no dia seguinte.
O exame era feito em escolas diferentes.
Mas a isso, já Danilo estava habituado.
Também a sua escola era só de rapazes. A das raparigas estava separada da dele, pela Cantina Escolar e por uns muros de vedação que não raras vezes pulava.

A campainha da escola retinia, cansada de tantos anos de vida.
Uma professora alta, de óculos redondos, começou a fazer a chamada:
- Número um, Acácio Fonseca e Melo, número dois, Artur Neves da Silva … número vinte, Danilo Albuquerque Pacheco.

Danilo entrou na sala de aulas. O seu lugar era bem ao fundo.

Os alunos nervosos, sentados nas cadeiras, pareciam mais ainda mais pequenos do que, na verdade, eram. O medo estava-lhes estampado nos rostos. A voz da professora não os sossegou. Pelo contrário!
- Meninos?! Aqui ninguém copia. O primeiro que se atreva a fazê-lo, vai para rua, e reprovado!
A professora, uma a uma, percorre as carteiras, distribuindo a folha de exame.

A sala mergulhou num silêncio tão pesado que até se ouvia o zumbido das moscas que, por sinal, eram muitas.
Com o decorrer do tempo, a aflição foi vencendo o medo. Aqui e acolá, ouviam-se uns murmúrios aflitos, de quando em vez, interrompidos pelo som austero e breve da professora:
- Chio!


O exame acabara.
Agora era tempo de espera.
E como custava aos rapazes aquele tempo!...

As pautas saíram.
Todos correm a ver os resultados.
Que alívio!
Todos aprovados!

A prova oral seria na semana seguinte.

Chegado o dia, Danilo sentado num banquito, ia respondendo às perguntas que dois professores, à vez, lhe faziam.
A oral de geografia foi canja! O professor até era conhecido.

Acabadas as orais, só dois, dos colegas, traziam raposa.


E, de novo, tinham chegado as férias grandes.
As brincadeiras tomavam agora todo o tempo a Danilo.

Naquela manhã combinara com os amigos uma corrida de arcos.
Foi-se ao velho triciclo e arranca-lhe a roda da frente. Tira-lhes os raios e os pedais, fazendo dela um arco operacional.
Tinha a máquina pronta para a corrida.
Ali estava ele, pronto para a partida.
- Ó Danilo, não queres trocar de arco? O meu é de ferro, é mais lanceiro, desafiava o Márcio, seu amigo de brincadeira.
Convencera Danilo. Ali mesmo fecharam o negócio. Na partida já Danilo estava armado de arco de ferro.
A corrida começa.
Danilo vai na frente.
Faltam apenas duas escassas centenas de metros para o final.
João ultrapassa Danilo.
Danilo, furioso, ao ver-se ultrapassado, dá um lanço ao arco, deixando-o embalar sozinho a caminho da meta!
Em sentido contrário, aparece um carro. Logo agora é que havia de aparecer um carro. Por aqui, eram tão raros!
Danilo para. Adivinha a tragédia. O arco vai direitinho ao carro. O embate dá-se. Grande estouro. Farolim do carro partido e Danilo a correr, estrada fora, em sentido contrário que nem um desalmado.
Um senhor gordo abre a porta do carro. Sai do carro. Contorna-o e vê o pobre arco do Danilo enfiado por baixo do carro. Indignado faz perguntas ao vento sobre quem seria o dono do arco.
Mal o arco embatera no carro, quem nem um bando de pardais, os rapazes tinham desaparecido que nem setas, uns para cada lado.
Danilo ia disparado por uma ribanceira abaixo que nem viu a barriga do dono do carro. Só parou, agachado, numa buraca que conhecia à beira rio. Esteve ali metido até que o sol se foi esconder, lá atrás da serra distante.
Quando voltou, já há muito que o senhor gordo se tinha ido embora. A sua fúria aplacou-a nos pobres arcos que jaziam, abandonados na berma da estrada. Foi-se a eles, e, um a um, arremessou-os para um silvado!
A QUINTA CLASSE



O Outono chegou.
Os lavradores já tinham apanhado as uvas que Danilo se entretinha a morder, ao fim de tarde, quando já não tinha força para mais brincadeira.
Já tinha ido ao rebusco, mais de três vezes. Bem olhava, ele, as videiras vazias, na procura de um cacho de uvas esquecido. Mas nem vê-lo. Uvas? Só as comeria noutro ano!

A escola volta a chamar Danilo.
De sacola de pano, de ganga azul, a tiracolo, Danilo regressa à escola. Estava na quinta classe.

Chegado à escola, nota que, naquele ano, as coisas estavam diferentes. Já não havia divisão entre rapazes e raparigas. Estavam todos em magote, num grande círculo, em frente à porta, da escola de baixo, a escola das cachopas.

No meio estava a professora.
A professora ia chamando os alunos, pelo nome, um a um.

Estavam a ser divididos, por turmas.
No fim, sobraram umas tantas raparigas e quatro amigos: Danilo, Fernando, o Manuel Augusto e o António.

A professora, com ar entristecido, chama os rapazes.
- Tenham paciência. A vossa professora ainda não veio. Vão ter que esperar em casa, mais alguns dias.

Os quatro pularam de contentamento. Perante o olhar de reprovação da professora, disfarçaram, sem conter pequenos guinchos de alegria. Quando a professora entrou portas dentro da escola, eles desataram a correr, a saltar, extravasando, toda a alegria que aquelas férias, extra, lhes causou.

Chegado a casa, Danilo contou ao pai a novidade: não tinha professora!

Artur ficou pensativo. Passou a mão pela barba de dois dias, coçou a sua farta cabeleira e saiu em direcção à escola.

Artur não queria o filho sem escola. Custasse o custasse, Danilo tinha quer ter aulas.

Artur recordava a sua infância de trabalho. Aos doze anos já ele saia de casa de madrugada para ir trabalhar para as crivas nas Minas do Fujo. Lembrava-se dos castigos que o capataz impunha às crianças como ele.
Quando as apanhava agachadas, de calças na mão, fingindo na satisfação das necessidades que não tinham, o cansaço da jorna, ia-se a elas e atirava-lhe pedaços de carvão. Lembrava-se, em especial, daquele dia em que ele lhe atirou com um pedaço tão grande de carvão, amassado com terras e pedras, que atingindo-o na barriga o prostrou por mais de três dias, na cama da enfermaria do hospital da Senhora das Amoras.
Não. Artur não ia querer aquela vida para o seu filho. O moço tinha que ter instrução. Estava decidido a qualquer sacrifício para levar o filho de volta à escola.

Na falta de professora, Artur foi ter com D.ª Berta. D.ª Berta fora professora de Danilo na terceira classe. Dava aulas de manhã e tinha a tarde livre. Era de longe. Só ia a casa nas férias. Vivia, com outras duas professoras, em casa de D.ª Fernanda que lhes alugara um quarto.

D.ª Berta concordara com Artur, dar aulas aos quatro rapazes, à tarde, em casa de D. Fernanda, se esta a autorizasse e os pais dos outros também aceitassem pagar o que tinha proposto ao pai de Danilo.

Artur falou com os pais de Fernando, do António e do Manuel Augusto. Todos aceitaram que os filhos tivessem aulas da D. Berta. Só faltava falar com a D.ª Fernanda.
D.ª Fernanda era uma mulher muito gorda, não tanto, quanto era pachorrenta! Por ela, podiam os miúdos ter as aulas que D. Berta quisesse.

D. Berta conseguiu um pequeno espaço no átrio da escola onde arrumou duas carteiras. Ai e em casa de D. Fernanda, começou a dar aulas aos quatro.

Todos os dias, era uma grande confusão! Um correr, cheio de pressa. A carteira de trás era disputada entre os quatro amigos, como se fosse a bola que todos queriam, nos jogos do recreio.
D. Berta era uma mulher jovem. Muito bonita e atraente. Os miúdos tinham entre os dez anos de Danilo e os doze de Fernando. Nenhum deles queria ficar na carteira da frente! D. Berta sentava-se de forma descuidada, num banco, colocado mesmo em frente às cadeiras e num plano mais alto. Os miúdos sentados na cadeira da frente não conseguiam descolar os olhos das pernas que D. Berta, sem saber, lhes mostrava até às coxas. Ali, toda aberta, a professora despertava a fantasia dos rapazes que se punham a imaginar coisas.
E como tinham medo que D. Berta lhes adivinhasse os pensamentos!
Se isso acontecesse, acabam-se as aulas e eram duas coças pela certa.
Uma de D. Berta que preocupada em ensinar os moços, nunca imaginou que eles pudessem pensar noutra coisa que não fosse nas lições que lhes dava.
Outra, dos pais que não lhes perdoariam a ousadia e a vergonha de os ver expulsos pela D. Berta.
Danilo que morava próximo da escola e da casa da D. Fernanda, conseguira, até ali, escapar à cadeira da frente! Nesse dia, porém, já ele estava sentada no seu lugar predilecto, quando ouve a mãe, com voz esganiçada, a gritar:
- Danilo, Danilo, anda cá.
Danilo teve que sair.
Veio contrafeito! Sempre a olhar para o portão.
O Fernando e Manuel, ainda não tinham chegado.
Eram quase sempre eles que ficavam na cadeira da frente.
A mãe do Fernando, era mãe de doze filhos e a ajuda do filho não a dispensava para cuidar dos mais novos.
O Manuel almoçava sempre mais tarde.
A mãe trabalhava na cantina da escola e só depois de dar o almoço aos miúdos é que ia a casa, tratar do seu e do dos seus dois filhos.
Danilo fitou a mãe, com ares de zangado.
- Que é que você quer?
- Anda a casa?
- Que fazer?
- Que fazer?! Ninguém precisa de saber!
- Não vou!
- Danilo!...
Teve mesmo que ir. Aquele olhar da mãe não lhe deixava alternativa. Ou ia a bem, ou iria a mal.
Por isso, foi.
E foi no passo mais lesto que conseguiu nas suas curtas pernitas.
A mãe ficava para trás e Danilo logo a apressava.
- Venha, senão chego atrasado.
Chegado a casa, então a mãe, disse-lhe a razão daquela pressa.
Chegara carta da tia do Brasil.
A mãe de Danilo não sabia ler. A avó, muito menos e o pai estava a trabalhar no Porto.
A avó não tinha paciência para esperar pelo fim da tarde para saber as novidades do Brasil.

Antes de sair da escola, Danilo amarrara a sua saca, aos ferros da carteira de trás. Deu-lhe os nós mais fortes que soube.

Não lhe valeu de nada!...
Quando regressou à escola já o seu lugar estava tomado.
O olhar maroto do Fernando fê-lo sentar-se na cadeira da frente.
Perante a presença da professora, outro remédio não teve que não ir para o único lugar disponível e calado.

Naquele dia, quando chegaram à escola, estranharam a falta dos alunos da manhã.
Pouco tempo depois, ficaram a saber pela empregada da cantina que a professora não viera.
Que bom! Suspiraram, pensando na tarde livre e na fugida à Levada para os mergulhos nas águas límpidas do rio mau. Enganaram-se! O recado da professora fez-se ouvir:
- Ide para casa da D.ª Fernanda que hoje as vossas aulas são lá.
Os quatro lá foram até à casa da “ti” Fernanda.
Chegados, foram recebidos pela dona da casa:
- Entrai. A senhora professora está à vossa espera, no quarto.
Desconfiados e surpreendidos com o local das aulas, lá foram.

A professora estava sentada na cama. Á sua frente tinha colocado quatro cadeiras. Eles entraram.
- Hoje as aulas vão ser aqui. Estou meia constipada. Sentem-se. Ordenou-lhes, D.ª Berta, indicando-lhes as cadeiras.
Eles sentaram-se.
- Vamos falar da constituição do corpo humano. Dizia D.ª Berta, com a sua voz adocicada e timbre da cidade.

D.ª Berta, afasta, ligeiramente, o roupão que trazia vestido, deixando adivinhar os seus seios firmes e robustos, mais alvos que a neve. Os rapazes ficaram de olhos especados no roupão de D. Berta!

D.ª Berta pergunta:
- Fernando, que osso é este? Metendo o dedo indicador, pelo meio do roupão, deixando perceber o externo.

Fernando, que não conseguia parar os seus olhos de buscar os seios de D. Berta, escondidos por aquele pedacinho de roupão que lhe estragava o que queria ver, meio atordoado nos seus pensamentos, atira:
- É…É o fumo!
- O quê? Interroga-se D.ª Berta, surpreendida com a resposta do aluno.
- Mas que raio de osso é esse, Fernando?!
Fernando, mais vermelho que um tomate, deita os olho ao chão, envergonhado.

- Deves querer dizer, fémur, não é?
- Olha! D.ª Berta levantava agora o roupão, deixando ao léu, as suas coxas. Que lindas coxas, tinha a D.ª Berta. Fernando estava capaz de explodir. Não aguentava mais.
- Vês? Este osso é que o fémur?
- Vamos lá! Insistia, D.ª Berta! Diz-me lá o nome deste osso. E voltava a indicar o externo.
Fernando ficou pensativo. Fez um último esforço para se concentrar, afastando os pensamentos que lhe tolhiam o raciocínio. Pensou, mais uma vez e quando julgou saber a resposta, disse:
- Já sei! É o interno!
A professora soltou uma sonora gargalhada.
- Áh seu palerma! Externo! Externo! È o nome deste osso, aqui. Vês? Externo!
- Este é o externo e insistia D.ª Berta em mostrar o local do osso para que Fernando não esquecesse e este é o fémur e voltava a levantar o roupão. Ora, vê lá. Externo e fémur! Percebes-te? Repete lá! Externo! Fémur.
Fernando jamais esqueceria o nome daqueles dois ossos. Sempre que lhe perguntassem por eles, ele lembraria-se dos seios e das coxas de D.ª Fernanda. Áh, se se lembraria!

As aulas com D.ª Berta chegaram ao fim!
Naquele dia, quando chegaram ao átrio da escola, as carteiras em que se costumavam sentar, tinham desaparecido.

Teriam, finalmente, uma sala de aulas. A professora da quarta classe tomaria, a partir dali, conta deles.
Os quatro eram os únicos alunos da quinta classe. Os demais estavam na quarta e tinham aulas, todos juntos e com a mesma professora.

Foi assim que Danilo fez a quinta classe.